segunda-feira, 13 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Ciclo do Amor Moderno

Oi tudo bem, você vem sempre aqui, que perfume bom o seu, aceita uma bebida, qual o seu nome, o que você está estudando, eu também gosto de Los Hermanos, deixa que eu te adiciono no Facebook, deixa que eu pago a conta, quer uma carona, quer subir, bom dia, quero te ver de novo, pode na terça, e na sexta, e no sábado, te pego às oito, você tá linda, tem um restaurante que vai gostar, separei um texto que li na internet pra você, te mandei pelo Whatsapp, você tem tatuagem, você já foi pra Roma, você curte fotografia, você quer pedir a conta, tem um lugar aqui perto que toca uma música boa, quer ir comigo, tudo bem também estou cansado, quer subir, acabou minha camisinha, bom dia, quero te ver de novo, cinema, teatro, tem uma festa também, você tá linda, vamos fazer uma selfie, a peça é boa, quem é Zé Celso, por que você não me falou que os atores interagiam, vamos tomar cerveja, você é mais bonita ainda bêbada, marquei você na nossa foto do Instagram, vou pedir a conta, quer subir, dorme aqui hoje, bom dia, fiz o café da manhã, quer viajar este final de semana, pessoal essa é a Bruna, todo mundo gostou de você, claro que é namoro, a gente se fala durante a semana, ah é bom dia, hoje num dá porque vou ficar preso no trabalho, amanhã num dá tem futebol, depois tem ensaio da banda, é tenho uma banda, pode ser segunda, como você dorme cedo, eu tento passar aí pelo menos pra te dar boa noite, num deu, me enrolei, tô com dor nas costas, minha vó morreu, meu carro tá sem freio, tenho um jantar de trabalho, tá bom eu vou, nossa que lugar chato, que cara trouxa, que garçom trouxa, que mulher bonita, que cerveja quente, que som alto, que merda de ator que quer interagir no bar, reparei sim, você cortou, ah mudou a cor, vamos embora, te deixo em casa, hoje num dá, tô com enxaqueca, tenho que fechar a planilha, a namorada do Caio terminou com ele, minha mãe vem pra são Paulo, é final do campeonato, aniversário da chefe, não estou muito animado, por que você quer terminar, me dá mais uma chance, vou mudar, vamos sair, quando você quiser, onde você quiser, eu te pego, você tá linda, linda, linda, do que fala essa exposição, o artista interage, que interessante, esse bar é de jazz, eu pago a conta, vamos subir, dorme aqui  em casa, fiz café da manhã, o seu perfume é bom, imprimi um texto que li na internet e me lembrei de você, vamos pra Roma fotografar as tatuagens dos atores de peças doidas, mas não nesse mês, não nessas férias, não nesse ano, porque vou ficar preso no futebol, amanhã tem casamento do Caio, minha enxaqueca piorou, minha vó ressuscitou, a minha banda morreu, vou dar um jantar pra minha mãe, meu twitter tá com vírus, tá frio, tá calor e eu não tava a fim de tomar banho hoje.

Texto de Priscila Nicolielo

Confiar é amar

Amar e confiar são a mesma coisa.
Demorei a perceber. Por isso confiamos em pouquíssimas pessoas em nossa vida.
E podemos passar uma vida inteira sem confiar em ninguém.
É tão difícil confiar quanto amar. Tão raro.
A confiança e o amor são conquistados. Exigem tempo, observação, sinceridade, lealdade, soma de atitudes.
Não é porque é sua mãe ou seu pai ou seu irmão que você vai confiar. Família não traz garantias.
Confiar não é genético. Confiar é intimidade recompensada. Confiar é recíproco. É quando damos e recebemos simultaneamente. Confiar é contar um segredo e ver, já no finzinho de nossa história, que nunca foi revelado.
É uma previdência privada de nossos mistérios. É quando as ações comprovam as palavras.
Confiar não é para os apressados, mas representa o retorno de uma longa viagem mental. É a velhice dos nossos hábitos, a velhice das nossas frases, a velhice de nossos juramentos. É quando um gesto recebeu a proteção do silêncio.
Quando alguém confia sem conhecer, na verdade, está esperando confiar. É uma aposta para tornar mais fácil a convivência.
Demonstramos despojamento no início das relações, mas somos complexos no decorrer da cumplicidade. Entregamos a chave da nossa casa para perguntar todo dia se o outro não a extraviou. E perguntar é desconfiar.
No máximo, confiamos desconfiando. Com o pé atrás e um olho lá na frente.
Confiamos com medo de confiar, sofrendo o receio de ser enganados, tremendo por depender de alguém, temendo pela nossa vulnerabilidade. Assim como o amor.
Falamos que amamos antes de amar, para nos convencer de que é amor.
Falamos que confiamos antes de confiar, para nos convencer de que é amizade.
Confiar é se desiludir, é se frustrar, é se decepcionar. Assim como o amor.
É criar as mais altas expectativas e depois se acomodar com o que é possível. Como o amor.
É aparecer com todas as certezas do mundo de que aquela é a pessoa certa e descobrir, aos poucos, que ela mente e pensa torto como você.
Confiar dói. Como o amor. Ainda mais quando a confiança é quebrada e não há como restaurá-la com discussões, colá-la com desculpas, consertá-la com declarações grandiloquentes.
Confiar é ter uma relação única com alguém, inimitável, e não dividi-la com um terceiro.
É o contrário da falsidade, que significa ser igual com todos fingindo diferença e exclusividade.
Deixar de confiar é deixar de amar – perde-se junto a admiração, o alumbramento e o respeito incondicional. Deve-se desamar para amar de novo.

Carpinejar

segunda-feira, 6 de julho de 2015